Tipos subterrâneos-nem tão ocultos assim

Transporte coletivo, muitas vezes, significa ficar grudado no camarada ao lado, ter que pedir licença para passar, se desculpar ao cochilar e babar no ombro do sujeito sentado ao seu lado ou, simplesmente, ficar bem acordado reparando nas figuras que ocupam aquele determinado lugar. Fico com essa última opção.
O metrô é um meio de transporte rápido- não enfrenta o congestionamento e, se estivermos na linha 1, não tem como nos distrairmos olhando a paisagem- precisamente o céu- o jeito de buscar distração é reparando nas pessoas ao nosso redor.
Outro dia embarquei na Praça Saens Peña e, na estação Afonso Pena, um senhor entrou, ocupando uma das cadeiras laranja, cedida por um jovem que, na falta de lugar, sentou-se ali. Esses assentos são destinados a pessoas deficientes, gestantes, com criança de colo e idosos- como aquele senhor.
De repente, em frente, uma cadeira verde foi desocupada. Imediatamente, o senhor, que aparentava estar quase na casa dos 80, levantou-se e foi para lá.
Fiquei tentando adivinhar o motivo dessa mudança: mas rapidamente tirei a minha conclusão: ele não deve se sentir "idoso"- apenas mais experiente.
Segui viagem e, ao meu lado- (eu estava sentada naqueles bancos laterais- mas que fique claro: de cor verde.)em um banco de cor laranja, uma jovem fingia cochilar. Os olhos estavam trêmulos- da mesma maneira que fazíamos quando éramos crianças e fingíamos que estávamos no mais profundo sono para nossos pais nos pegarem no colo. Esse truque é velho e manjado.
Trem lotado. Um rapaz, em pé na minha frente( não sei se ele era advogado ou corretor de seguros), fez do vidro da janela um espelho. Ajeitava o topete como se estivesse no banheiro de casa.Vestiu o paletó, estufou o peito e saltou, se sentindo o "advogato" ou o "mais seguro dos corretores".
Vou confessar uma coisa a vocês: quando o único lugar que sobra é o banco de costas, eu é que vou de costas para quem está ao meu lado.Fico tonta andando como um caranguejo.Quando não tem nem esse lugar, vou em pé, com cara de assustada, agarrada no ferro.Pareço um esquilo. Para quem está analisando os passageiros, assim como eu faço, devo parecer uma figura típica de comentários.Finjo que não percebo.
Focando a análise para os outros passageiros, o trem foi esvaziando e um silêncio fez-se presente, até o momento em que uma mulher começou a falar alto;na verdade ela berrava sobre o aumento do material escolar.
Discretamente, peguei meus óculos escuros e tentei ver se estava com esses celulares minúsculos que cabem dentro do ouvido. Que nada.Ela falava e gesticulava para ninguém- ou melhor- para todos que estavam no vagão.
Uma senhora começou a puxar conversa com ela e, rapidamente, a voz dela foi ganhando um tom normal. Seria uma nova tática para os escandalosos de plantão?
O metrô chega. Todos saem. Em um banco, uma senhora cochila.Os óculos dela estão quase na ponta do nariz. Não reparei se antes havia alguém sentado ao lado dela. De repente esse alguém se levantou com o ronco ou, quem sabe, ela é uma dessas passageiras que baba no ombro alheio.
As portas do desembarque se fecharam.As do embarque abriram para mais uma viagem com tipos subterrâneos- mas nem tão ocultos assim.

2 Comments:
Roberta
adorei o texto do trêm, em que escreve que o veículo serve como aquele em que a pessoa fica babando na outro. Muito legal. beijos, Diogo
É maninha,
Você mandou muito bem,consegui visualizar cada situação descrita aqui !
Parabéns !Viu,demorei mas 20 visitar ;0)
beijos,
Rê
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